Caridade. Na comunidade de Pató, no município de Caridade, a arte da cerâmica transmitida de geração em geração se mantém viva como um saber intimamente ligado à história das famílias do povoado do distrito de São Domingos. Mesmo assim, há uma indagação importante sobre o futuro desta arte: até quando ela sobreviverá?
Todos os dias, a mesma coreografia. Mãos cheias de energia deslizam para lá e para cá. Amassam, apertam, moldam, criam e recriam a arte. As pernas, por sua vez, se revezam entre os atos de agachar, sentar e levantar, repetidas vezes. O palco que acolhe esse bailado são as casas simples da comunidade de Pató, distante 100 quilômetros de Fortaleza.
Ali, um grupo de ceramistas comandado por dona Maria do Carmo Teixeira Gomes, de 84 anos, mantém viva a arte de confeccionar, sem utilizar forno, panelas de argila de diversos tamanhos, queimadas somente com a temperatura externa, sob o sol.
A produção da cerâmica em Pató permite a subsistência das famílias, organiza e regula as relações cotidianas, confere legitimidade social no interior da comunidade e dá lastro à vida familiar. Em Pató, todos os artesãos mostram-se conhecedores de uma arte peculiar, em que as mãos e a criatividade de cada um dá vida às novas formas, originadas a partir do barro. Outro fator interessante é o destaque para a relação estabelecida, quase orgânica, com o barro, que chama a atenção. É como se ele fosse uma extensão do próprio corpo. Não há como eles se manterem privados desse contato, que se faz diariamente e sem intermitências.
Embora cada artesão fabrique suas peças individualmente, todos compartilham a última etapa da produção: a queima. Uma atividade coletiva realizada sob o calor emitido pelos raios solares. Para a artesã Maria do Carmo, é um prazer ver a arte, da qual tem tanto orgulho, seguir gerações. É caso de sua filha Benedita do Carmo Gomes, de 51 anos, que não deixa a tradição sem sua essência e segue firme na modelagem do barro, transformando-o em arte. "Enquanto vida eu tiver vou continuar na arte do barro", avisa dona Benedita.
A líder de todos por consenso é a carismática dona Maria do Carmo, que desde os 9 anos molda o barro. Ela reúne em si os valores e as regras do grupo e funciona como catalisadora das demandas da comunidade. A importância da anciã pode ser medida pela quantidade de seguidores em Pató. Muitos ainda seguem a tradição de pedir-lhe a bênção. "Aqui todos respeitam a dona Maria do Carmo. Ela é uma espécie de relíquia do artesanato da região", observa Arcelino Tavares, ex-prefeito de Caridade e que mora próximo de dona Maria do Carmo.
Quem visita a comunidade de Pató leva registradas em sua memória algumas palavras que, juntas, definem a essência das ceramistas do lugar. Altivez, vitalidade, capacidade, superação, inventividade e graça.
A arte do barro é uma atividade antiga, existente há mais de 3mil anos antes de Cristo. No Brasil é uma prática muito representativa para a cultura popular. É uma herança deixada pelos povos indígenas. As índias faziam brinquedos de barro para os filhos e objetos domésticos como gamelas, tigelas, alguidares, potes e modelavam de acordo com sua criatividade e necessidade. Pintavam as peças com tintas fortes e coloridas, inspiradas na natureza.
O artesanato de barro é uma produção espontânea que parte da sensibilidade e da ingenuidade do artesão. Em Caridade, os artesãos antes anônimos de Pató dão demonstração da força e da coragem de tirar do barro a idéia que transforma a dignidade de cada um.
Dona Maria do Carmo disse à reportagem do Diário do Nordeste que sua grande alegria é ver, todos os dias, seus seguidores colocando em prática novos modelos e o que é mais importante: tirando da lagoa (local da extração do barro na comunidade) as relações sociais e econômicas entre famílias.
"Dos artesãos são feitas as comunidades, as histórias e a correlação pessoal", frisa o secretário de Desenvolvimento e Agricultura Familiar de Caridade Ary Botelho.
Para o secretário, curiosidades temperam o cotidiano e a relação de cada morador de Caridade, como as famosas louceiras do Pató.
Mais informaçõesSecretaria de Ação SocialRua Coronel Francisco Linhares, 250, Centro - (88) 9194.3347
ARTESANATO
Produção coletiva enfrenta concorrência
Caridade A queima das peças de barro é uma atividade coletiva realizada num grande forno a céu aberto. Os custos da lenha consumida são repartidos pelos ceramistas de Pató, em Caridade. A noção da coletividade segue viva no lugarejo, assim como o respeito aos mais velhos.
Receber a benção da matriarca do barro, dona Maria do Carmo, além de confortante é um ritual diário entre crianças, jovens e adultos. "Todas as pessoas que passam aqui tomam a bênção a dona Maria do Carmo. Aqui quem vive do barro aprendeu com ela. Eu mesmo só sou artesão por causa dela e me sinto orgulhoso de ter sido seu aluno", fala José Bernardo da Silva, que deixou de lado a agricultura de subsistência para dedicar-se à cerâmica.
Dona Maria do Carmo sintetiza a história, os desafios, as contradições vivenciadas por muitas mulheres da comunidade. Muitas superam as dificuldades com a renda do artesanato. "Quem não seguiu a linha dos estudos, o jeito foi cair de corpo e alma no barro. Em Pató, muita gente tem orgulho de ser artesão", declara a jovem Maria Ioneide da Silva, de apenas 11 anos, que já molda o barro.
Apesar de relatos que enchem de orgulho os ceramistas de Pató, o futuro é motivo de apreensão. O comércio já teve momentos mais pujantes. Hoje, as artesãs se queixam da diminuição do interesse em relação à cerâmica utilitária que produzem. A concorrência com peças fabricadas em outros centros do Estado enfraquece os negócios. Pelo menos esse é o ponto de vista da agricultura Maria de Jesus Ferreira que, mesmo trabalhando o barro, ainda cuida da roça. A pesca e a agricultura, encabeçadas pelos homens, não oferecem a fartura como antigamente. Desde os invernos incertos, a atividade ficou prejudicada pela redução dos peixes, do milho e do feijão. Os homens ainda são minoria, somente dois, mas já demonstram as mesmas destrezas e satisfação das demais integrantes do grupo de ceramistas. Mesmo sabendo que essa cultura milenar sobrevive sob ameaças, as ceramistas de Pató vão tocando a vida, moldando o barro em defesa da sobrevivência e da vida.
Criado em 06 de agosto de 1958, com uma população de 17.977 habitantes, o município de Caridade destaca-se pela arte de transformar o barro em arte. Com 51 anos de existência, a região é hoje um celeiro de louceiras. "Diante desse grande número de artesãos do barro estamos concluindo um centro de artesanato ao lado da BR-020 para que os artistas de Caridade possam expor e comercializar seus produtos", diz o prefeito Júnior Tavares.
Com a construção dos Caminhos de Assis, ele espera que o fluxo de turistas e romeiros aumente, facilitando as vendas dos produtos. De Caridade, o artesanato de dona Maria do Carmo e de outros artesãos segue para países da Europa, América do Sul e boa parte do continente asiático.
fonte: DN
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