A partir do legado da Comissão, pode-se identificar debates sobre a degradação ambiental em curso no século XIX
Fortaleza A beleza singela das aquarelas de José dos Reis Carvalho ao retratar as paisagens cearenses contrasta com um processo de devastação em pleno curso na então província imperial, assim como nas demais regiões do Brasil. Desflorestamento, erosão, mudanças climáticas e exaustão de recursos tidos como inesgotáveis são preocupações que se percebem nos escritos do botânico Francisco Freire Alemão e outros membros da Comissão Científica de Exploração, um projeto que levou os principais intelectuais brasileiros do período a registrar aspectos geológicos, naturais e sociais do Ceará, viagem cujo início completou 150 anos em 2009.
No relatório da Sessão Botânica feita após a expedição, Freire Alemão lamenta "o nosso modo bárbaro de cultivar a terra" e o fato de não restar "senão a lembrança" das florestas da Serra Grande. Muito antes do que se imagina, intelectuais brasileiros se debruçaram na questão ambiental e nos efeitos da devastação já no século XIX, apesar dessa discussão não ter chegado a frear a perda de boa parte da fauna e flora nativas do Brasil.
"A Comissão Científica acontece num momento histórico de focalização de debates sobre os efeitos da ação humana no ambiente, discussões que intelectuais como Freire Alemão e Guilherme Capanema já vinham fazendo anteriormente", coloca José Augusto Pádua, professor do Departamento de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Interlocução
O historiador destaca também os escritos de dois cearenses. O primeiro teve uma profunda interlocução com os "científicos": Tomás Pompeu de Sousa Brasil, o Senador Pompeu. "O Tomás Pompeu é quem promove a discussão com esses viajantes no Ceará, recebe-os em casa, então é possível imaginar que eles tenham discutido questões relacionadas à degradação ambiental", comenta. O segundo, já no século XX, é o agrônomo e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), Renato Braga, que produziu o primeiro grande trabalho sobre a Comissão Científica. "O Renato Braga conseguiu acesso a uma documentação ainda hoje de difícil acesso e o livro é uma leitura saborosa. Ele dá uma ideia do que foi a Comissão e das preocupações que norteavam a viagem exploratória".
Apesar de ter na prática da monocultura e da pecuária extensiva a principal fonte de devastação dos recursos naturais existentes no Brasil desde a Colônia, José Augusto Pádua identifica, no século XIX, preocupações ambientais distintas de acordo com a ecologia de cada região. "Na Bahia, por exemplo, percebe-se uma preocupação com a indústria madeireira e o combate às queimadas. Na Amazônia, é a questão do extrativismo vegetal e animal de espécies como a copaíba e o peixe boi. Já no Ceará, a discussão será centrada na relação entre a perda de florestas naturais e as mudanças no clima decorrentes dessa intervenção do elemento humano, algo extremamente atual em nossos dias. Inclusive, o Senador Pompeu escreve sobre a influência da ação do homem sobre o clima falando que a atmosfera é um ´campo suscetível de cultura´", destaca o historiador.
Discurso x prática
Mas, mesmo a existência de um pensamento sólido no Brasil oitocentista em relação a questões ambientais não foi suficiente para conter o avanço de práticas predatórias e de alterações do meio. "Naquele período, não havia uma sociedade civil organizada nem canais de difusão, como acontece hoje. Então esse debate fica num plano intelectual, desses cientistas se dirigindo ao Estado. Mas da mesma forma tínhamos um Estado limitado em termos de capacidade de ação. Eles também tentavam dialogar com os próprios fazendeiros, mas estes tinham práticas arraigadas, numa visão de curto prazo e ganho imediato que não é difícil encontrar em nossos dias".
Na visão do especialista em história e política ambiental, a experiência e o legado da Comissão Científica são relevantes para pensar numa discussão ambiental que ajuda a pensar o próprio Brasil. "É importante frisar que os debates que esses intelectuais promoveram não tratavam o ambiente como algo a parte, um apêndice, mas fazem uma relação importante com os problemas econômicos e sociais do período, mostrando que o desflorestamento pode levar a processos de desertificação, alterações no clima, inutilização das terras".
Karoline Viana
Repórter/DN

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