quarta-feira, 11 de novembro de 2009

SECA DE 1932 Caminhada réune 4 mil romeiros

Alex Pimentel
Movimento religioso se fortalece como prova de devoção popular e luta pelo desenvolvimento de políticas públicas

Senador Pompeu. O martírio de milhares de retirantes no flagelo da seca de 1932, no Sertão de Senador Pompeu, foi relembrado por mais de quatro mil fiéis na manhã deste segundo domingo de novembro. Segundo os organizadores, praticamente o dobro de romeiros e pagadores de promessas, em relação a última Caminhada da Seca, participou do ritual, realizado pelo 27° ano consecutivo. Mais uma vez homenagearam as santas almas da barragem, como ficaram conhecidas as vítimas da fome e da cólera enterradas no campo santo situado a 3,6 km do Centro da cidade.

Nem havia amanhecido e José Mendes de Sousa, 64 anos, já carregava na cabeça uma cisterna de placa em miniatura. Além do ato religioso, o reservatório domiciliar se transformou no símbolo da redenção do infortúnio sertanejo, a seca. Ao lado do agricultor, o padre Roberto Costa, responsável pela mobilização pastoral, guiava o rebanho humano pela sinuosa estrada do Santuário da Seca. Missionárias empunhavam faixas exaltando a Caminhada e a luta do povo de Deus pela vida e cidadania. Logo atrás a multidão gritava em coro: "As almas do povo são o santo do povo"!

Dessa vez o bispo diocesano, dom João Costa, e o bispo emérito de Iguatu, dom José Doth, também participaram do ritual místico popular. Acompanharam a procissão, caminhando da Igreja Matriz de Nossa Senhora das Dores ao Cemitério da Barragem, ao lado do Açude Patu, onde mais de 15 mil retirantes foram mantidos contra a própria vontade, no campo de concentração da Comissão do Dnocs. Ali, em 1921, era iniciada a obra da barragem do Rio Patu, hoje suprindo de água o povo do lugar. Antes de encher, na seca de 1932, o açude foi transformado em um enorme acampamento de retirantes.

Foi Luiza Pereira Lô, 83 anos, considerada a última testemunha viva dessa trágica e humilhante passagem histórica, quem relatou detalhes sobre a cruel saga sertaneja daquela época e também recebeu os missionários de Deus, diante do Cemitério da Barragem.

Havia motivo especial, a inauguração do monumento de aço erguido no lugar da velha cruz de madeira, onde, a cada ano, tem aumentado o número de peregrinos a deixarem ali o sinal de alguma graça alcançada pelas almas da barragem, para eles santas e milagrosas.

Os testemunhos da octogenária lavradora, e de outros remanescentes daquela época de sofrimento, levaram o vigário Albino Donatti, então pároco da Igreja Matriz de Senador Pompeu, a iniciar, em 1982, a romaria ao Santuário da Seca.

O segundo domingo de novembro foi escolhido pelo sacerdote como forma de reverenciar as almas anônimas da barragem. O ato religioso acabou se transformando também em um movimento social em busca do fortalecimento de políticas públicas para convívio com a seca. Desde essa época, essa luta continua e o povo nordestino fortalece inda mais sua fé nas Almas da Barragem.

MEMÓRIA

"Eu ainda era menina quando vi muita gente morrer na minha frente, de fome e doença"
Luiza Pereira
Sobrevivente da seca de 1932

Mais Informações:
Paróquia de Senador Pompeu
(88) 9928.2592
Secretaria Municipal de Cultura
(88) 9926.0629

Alex Pimentel
Colaborador/DN

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