domingo, 1 de novembro de 2009

DIA DE FINADOS Arqueologia da vida


O Dia de Finados, amanhã, sugere algumas considerações sobre o uso que fazemos da cultura diante desta nossa última viagem

No dia-a-dia do jornalismo cultural, somos seduzidos por tantos eventos e discussões que dificilmente paramos para pensar em qual a real importância de toda esta "produção", nem como chegamos até aqui, muito menos para onde ela nos levará. Assim, deixamos de lado nossa finitude com a mesma "naturalidade" com que desprezamos a contribuição de pessoas mais velhas. Ora, tem as crises, as conferências, as formações, os editais, os shows, as festas, pra quê especular em torno dos que não fazem mais parte do roteiro cultural cotidiano? Deixemos para falar deles só nas datas redondas de suas mortes, ora mais! Realmente, é bem mais natural continuar valorizando os artistas e os "artistas" produtivos, ou melhor, com projeção na mídia, por um motivo ou outro - o que para muitos é exatamente o mesmo. Mas, nesta véspera de Finados, os convidamos a deixar esta lógica um pouco de lado. Simplesmente pensando em como podemos nos relacionar com a criação sob a perspectiva das nossas mais naturais limitações, algo que é sempre um tabu, sobretudo na arte. Sem querer ser fúnebre ou inconveniente, tenho que lembrá-los de que morreremos, como tantos que contribuíram para chegarmos além daqui, mesmo que muitos não se deem conta disso.

Mas não vamos aqui viajar em tratados filosóficos, antropológicos ou religiosos sobre o que se convenciona chamar de "cultura da morte" ou ainda "morte da arte". Tampouco consultaremos os oráculos da tanatologia. Deixando de lado o fúnebre do "Finados" que se anuncia, o Caderno 3 deste domingo é dedicado aos vivos. Vida, afinal, tão absurda quanto a própria morte, tomando de empréstimo uma acepção de Sartre. Cada um à sua maneira, alguns pesquisadores e artistas falarão sobre como a arte pode interferir sobre nossas (e sobre novas) existências, mesmo depois de partirmos. Por isso mesmo, homenagearemos alguns dos cearenses que "já foram" e que contribuíram para a nossa cultura, na visão de alguns de seus continuadores ou críticos. Re-significando suas ausências, estimulando breves arqueologias de suas existências como representações de que, apesar de que nunca tão espetacularizadas como a recente morte de Michael Jackson, tais ausências e suas ainda possíveis memórias demonstram que devemos ir adiante. Um campo de pesquisa transdisciplinar ainda pouco considerado, ainda livre para especulações espontâneas, em favor da arte de viver.

Nas próximas quintas-feiras, até 3 de dezembro, os professores Gabriela Reinaldo e Marcelo Dídimo, do Instituto de Cultura e Arte da Universidade Federal do Ceará, promovem o minicurso "Tradução e hibridismo: formas de antropofagia da linguagem". As inscrições podem ser feitas na Secretaria da Pós-Graduação em Comunicação da UFC (Avenida da Universidade, 2762, 2º andar). "Sei, e a morte com isso?", questiono-me através do leitor, à moda de Machado e seu "Memória Póstumas de Brás Cubas". Ora, caros, não vamos aqui estragar seu contato com as relações intersemióticas e estéticas, tomando como base o modernista Oswald, passando pelas alteridades em Vilém Flusser e Haroldo de Campos. Vamos teorizar um pouco, dizendo que a "iconofagia", a que também se refere sua ementa, está sim próxima ao nosso tema.

Ícone, uma imagem, real ou metafórica, que representa, por semelhança, algo, vivo, morto ou inanimado. Então, chegamos à imagem, um dos caminhos mais pesquisados para se entender o que está vivo ou morto na cultura de hoje. Doutora em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP), Gabriela Reinaldo comenta que a tão contemporânea "imagem" vem do latim "imago" e está associada, vejam só, à máscara mortuária. Por isso, diz, toda imagem remete a um desejo de preservação de um laço memorial com aquilo que é da ordem da "evanescência", do "efêmero". Esse desejo de permanência está originalmente associado à religião, ao mágico. Bem depois, o anúncio da reprodutibilidade técnica feito por Walter Benjamin e a "exaustão de imagens" levaram pesquisadores como Hans Belting e Dietmar Kamper a falarem que a gente simplesmente não enxerga mais. "As imagens hoje não têm mais aquele sentido ligado ao inconsciente, são seriadas, como se a gente estivesse sempre na presença da morte, de um desejo de escapar da morte", diz a professora. A imagem é o totem dos séculos XX e XXI. Ou ainda, suas novas máscaras mortuárias.

Há mais de cinco anos, numa pesquisa de campo, Gabriela desencontrou as carpideiras que imaginava haver no Cariri cearense, através de um estudo baseado no "Abril Despedaçado", de Ismail Kadaré (o livro, e não a transcriação cinematográfica de Walter Salles). Se os traços da tradição trágica de despedida da morte, marcante na milenar cultura albanesa, esbarraram nas incelenças das rezadeiras e das irmandades, ela localizou as imagens-máscaras novamente nos livros, entre conceitos como o dos "olimpianos" (Edgar Morin) que consideram a necessidade de humanização dos ídolos, dos semideuses, mitos das imagens atuais. "Michael Jackson estava com uma imagem mais negativa, e sua morte parece que deu um novo sopro pra ele. Um processo que passa por essa humanização e ainda pela lembrança dos feitos sagrados, espalhados nas tantas imagens que ele deixou". A pesquisadora deixa no ar se este "novo lustro" à carreira do Rei do Pop será suficiente para garantir sua perenidade artística. "Arte é o que resiste ao tempo, suscitando interesse. Sua transgressão atinge até o tempo, gerando interpretações diferentes. Daí a dificuldade de se dizer hoje o que é arte". Temos ou não que ficar atentos aos conselhos daquela inclemente senhora?

HENRIQUE NUNES
REPÓRTER/DN
Imagem, Michael e arte

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