Carlos Henrique Soares é artesão e considerado um dos melhores xilógrafos da região do Cariri
Crato. O artesão Carlos Henrique Soares tinha tudo para enveredar no submundo da droga e do crime. Criado na Rua das Cacimbas, uma das localidades mais violentas do Crato, ele viu os seus companheiros de infância fumando maconha e, mais tarde, serem mortos por gangues, no confronto com a Polícia, ou presos, como aconteceu com um dos seus irmãos.
Carlos preferiu o caminho inverso. No trajeto entre a sua pobre casa, sem banheiro, e a roça, o menino retirava cascas de cajaranas com as quais fazia boias de galão para rede de pescar. Com esse trabalho, ajudava o pai, o pedreiro Pedro Henrique Soares, na renda familiar. Com a chegada do isopor, que substituiu as boias, perdeu o ganha-pão, mas não perdeu a esperança. Com as cascas da cajarana que sobraram, ele começou a construir casas em miniatura, retratando a rua pobre onde morava.
Com 10 anos de idade, ele começou a frequentar a escola, onde teve a ideia de fabricar o seu próprio carimbo em madeira. Como ainda não sabia assinar o nome, era identificado pela imagem dos animais que ele esculpia em pequenos pedaços de madeira.
Requisitado
Começava a nascer ali, naquela brincadeira infantil, o grande artista, apontado como um dos mais requisitados xilogravuristas da região, uma arte milenar que consiste em utilizar madeira como matriz e possibilita a reprodução de imagens e textos sobre papel ou outro suporte adequado. É um processo inversamente parecido com um carimbo, já que o papel é prensado com as mãos sobre a matriz. Segundo o poeta Luciano Carneiro, diretor da Academia de Cordelistas do Crato, "Carlos Henrique é o melhor xilogravurista que ele conhece".
Dividido entre os estudos, o trabalho pesado e a xilogravura, Carlos Henrique cresceu, alimentando o sonho de ser um artista. No fim da década de 80, foi descoberto pela Academia de Cordelistas do Crato que, a partir de então, começou a utilizar as suas xilogravuras nos cordéis que edita. Nas horas vagas, ele exercita a litografia, um processo de gravura em plano, executada sobre pedra calcária (chamada pedra litográfica) ou sobre placa de metal em geral, zinco ou alumínio.
Outra atividade do artista é a escultura com madeira. Uma de suas peças é um homem com os punhos cerrados e sem cabeça. Ele diz que a imagem simboliza a ira. "Quando o homem está com raiva, perde a cabeça", justifica. Carlos Henrique esclarece que, no momento, a sua principal atividade é a xilogravura que, além de lhe proporcionar um grande prazer, é o seu meio de sobrevivência. "Com esta arte estou criando a mulher e os três filhos", afirma.
O artesão acrescenta que não têm faltado encomendas. Cada uma das xilogravuras é vendida ao preço de R$ 50,00. As mais simples são feitas em um dia. Com a renda, está concluindo a construção de uma casa, na rua "Chapeado Noventa", Parque Recreio, onde ele mesmo faz a comida, enquanto a mulher trabalha no comércio e os filhos estão na escola.
Superação
Mas nem tudo é sucesso. Em 2003, com 30 anos de idade, o artista encontrou mais uma adversidade pela frente. Contraiu dengue hemorrágica, seguida de um derrame cerebral. Foi desenganado pelos médicos. Mais uma vez, não perdeu a esperança. Para surpresa de todos, recebeu alta. No entanto, ficou com algumas sequelas: dor de cabeça e tontura.
Botou na cabeça que ia ficar bom. Por conta própria suspendeu os medicamentos e acreditou no poder da fé. Com a saúde recuperada, voltou a trabalhar normalmente, quando foi surpreendido com o desabamento de seu casebre na rua das Cacimbas. A chuva levou tudo, menos a sua arte, que continua latente, uma resistência cultural que coloca o Crato e o Cariri na galeria dos maiores artistas da região Nordeste do Brasil.
FIQUE POR DENTRO
Técnica se originou na China e é usada no NE do Brasil
A xilogravura originou-se na China, sendo conhecida desde o século VIII. No oriente, ela se firma na Idade Medieval. No século XVI duas inovações revolucionaram a xilogravura. No fim do século XVII, Juliana Gularte teve a ideia de usar uma madeira mais dura como matriz e marcar os desenhos com o buril, instrumento usado para gravura em metal e que dava uma maior definição ao traço. No século XX, a técnica da gravura de topo foi criada por Thomas Bewick. Com a invenção de processadores de impressão a partir da fotografia, a xilogravura passa a ser considerada uma técnica atualizada. É mais usada nas artes plásticas e no artesanato do nordeste do País.
Mais informações
Carlos Henrique Saraiva
Rua Joaquim Alves Correia (Chapeado Noventa), 12
Parque Recreio
ANTÔNIO VICELMO
REPÓRTER/DN

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