domingo, 2 de agosto de 2009

Gonzaga de saudades

Um magote de meninos tocava encabulado na porta do hotel Tavares Correia, em Garanhuns, Pernambuco, quando um funcionário avisou: “vocês vão tocar lá dentro para um cidadão”. Terminada a cantoria, o Neném, oito anos, um dos irmãos, recebeu na mão um bolo de notas de réis e um endereço. “Aquele papel mudou minha vida”, conta hoje o menino feito homem.

Quando inteirou 13 anos, a família de Neném pegou 11 dias de pau-de-arara até o Rio de Janeiro, “êta viagem ruim!”, e foi bater na porta de Luiz Gonzaga. “E eu não saí mais da cola. Lá era fartura, vivia sempre de barriga cheia” e abre a gargalhada José Domingos de Moraes, que virou Dominguinhos porque o Rei do Baião não achava Neném apropriado para um nome artístico de um sanfoneiro de vergonha. Considerado o maior seguidor de Luiz Gonzaga – título que o próprio Gonzagão confirmou - Dominguinhos herdou do mestre a indumentária e o estilo.

Suas lembranças trazem um homem alegre, que ajudava a quem estivesse perto, mas “brabo e de rompante”. Se assinasse um contrato, cumpriria na certa. E se fosse contrariado, também cobrava com rigor, mas era difícil guardar mágoa. “Quando fui casar, dei a notícia e eu tinha 17 anos, a Janete ficou grávida. Ele ficou danado e disse que eu não aparecesse mais lá. Resultado: ele foi padrinho do casamento”, diverte-se com as lembranças.

“O dia em que eu fiquei mais garboso foi quando ele me apresentou como herdeiro artístico dele. Foi o começo e o fim de tudo. Era emoção que não teve igual”. Quem acompanhou o mestre Gonzaga até a hora da morte, quer guardar para si as festas que aconteciam ao seu redor. Juntava-se todo mundo para tocar na beira da cama, mesmo teimoso de ficar quieto.

Ele adorava fechar os olhos para ouvir a sanfona. Elba Ramalho, o rapaz Waldonys e a família, Dominguinhos, Marinês. Na memória de menino, Waldonys, afilhado de “seu” Luiz vem alta a risada gostosa do velho Lua. Tinha apenas 17 anos no dia da partida do padrinho. “Uma pessoa extrovertida, cheio de energia positiva, mas que sabia às vezes dar um grito. Porque ele era intempestivo, fazia coisas sem pensar”. Do mesmo jeito que brigava, logo consertava as coisas. Se há que julgue que Luiz Gonzaga reinventou o baião, Waldonys é enfático em dizer que a contribuição é muito maior. “‘Seu” Luiz criou o baião”, garante.

Lá pelas bandas de Exu, Luiz Gonzaga era bem mais que um músico da terra. Para muita gente, se não Jesus Cristo, o melhor dos políticos, a esperança. Interviu para a construção da rodovia que ligou as cidades pernambucanas Ouricuri a Exu, a realização de um poço artesiano, de um colégio, até a limpeza do açude. “A cidade é outra depois de Luiz Gonzaga”, calcula Beba Parente, presidente da ONG que administra o Parque Asa Branca. “Pensar na contribuição de Luiz Gonzaga é redundante. Ele foi a própria transformação”.

Sem meio-termos, a cantora Elba Ramalho não encontra os parâmetro para medir Gonzagão, enquanto recorda-se da primeira vez que arribou a vista para a sanfona do Rei do Baião. Luiz já era um ídolo consagrado no dia do encontro, bem no comecinho dos anos 80. Ela só queria escutá-lo. “De todas as maneiras, qualquer artista nordestino tem Gonzaga como referência primeira. Porque ele fala da gente, nos representa bem, traz a gente na raiz”. O canto do Rei para ela é um filme, cujas histórias também fez parte.

A dor estava presente, mas o que marcou foi o remelexo das saias das meninas, dos dias de fartura, dos primeiros amores. Enquanto todo mundo queria conhecer, cumprimentar, chegar perto do Rei do Baião, para um adolescente de 13 para 14 anos, aquele era só o avô que perguntava se estava indo bem na escola, do que eu gostava de fazer. “Quando meu pai chegava e dizia ‘vamos visitar o seu avô’ eu achava um saco. Eu só vim perceber a importância dele muito tempo depois”, diz Daniel Gonzaga, filho de Gonzaguinha e neto de Luiz. Ele pensava: “tudo bem, ele é o Rei do Baião, mas não quero falar com ele, queria fazer outras coisas”, lembra da reação durante a infância. Daniel diz que os dois não tem histórias extraordinárias juntas, mas de lembranças poucas porém prazerosas de se guardar.

Ele contava 14 anos no dia da morte do avô, conviveu pouco. Mas a música que se respirava na família respingou nele também e o hoje músico aprendeu a tocar o primeiro instrumento que ganhou do avô, um violão em 1979. Ficou triste com a morte, claro. E a importância dele só veio entender depois.

(Agélica Feitosa)
Vida e Arte
O Povo

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