
“Numa tarde bem tristonha/ Gado muge sem parar/ Lamentando seu vaqueiro/ Que não vem mais aboiar (...) Bom vaqueiro nordestino/ Morre sem deixar tostão/ O seu nome é esquecido/ Nas quebradas do sertão”. A morte do vaqueiro, Luiz Gonzaga e Nelson Barbalho.
Ele cantou até o fim. Entre toadas e aboios, juntava e dissipava um gado imaginário em meio aos delírios de sonhos acordados. “Êêêêêêêêêêêêêi aaaaaaaai”, soltava leve com a voz grave pelos pastos, enquanto o corpo, pesado, teimava em recolher-se no leito do Hospital Santa Joana, em Recife. Volta e meia, num suspiro de lucidez, pedia a Joquinha que deixasse de ser preguiçoso. “Vá pegar minha sanfona, cabra”, exigia com toda a autoridade. “O carro já está pronto para a gente viajar?”, insistia com o sobrinho. João Januário Maciel, o Joquinha Gonzaga, viu de perto os últimos versos brotando do tio Luiz Gonzaga do Nascimento, tocador enquanto viveu. Ele e Idelzuita, segunda mulher e companheira no fim da vida. Naquela manhã de 2 de agosto de 1989, já não segurava mais o fole. Vítima de uma parada cardiorespitarória em consequência de um câncer nos ossos - e debilitado por pneumonia e osteoporose – aos 77 anos, o Rei do Baião dizia adeus.
Dali, se viu, talvez, uma das festas mais bonitas e emocionantes a que o Nordeste assistiu. O povo saiu em romaria em cada ponto de parada do corpo. A gente chorava, cantava e muitos se vestiam garbosos, qual o Rei do Baião. Acontecia exatamente como o velho Lua havia descrito ao filho Gonzaguinha meses antes: o Juazeiro do Norte e o Crato se entupiram de gente que não dava vencimento. A terra do Padre Cícero, disse Gonzagão, como a cidade que concentra todo o Nordeste, deveria receber o corpo, mas o Crato iria se enciumar. O filho teria trabalho. “Rapaz, vai ser muito difícil, porque todo mundo vai querer um pedacinho de mim”, anteviu Gonzagão ao filho, segundo registrou a biógrafa Regina Echeverria.
E o trabalho foi grande realmente. Gonzaguinha, que havia acordado no meio da noite prevendo que o pai havia partido, teve junto ao corpo uma difícil missão: apresentar Helena, companheira de 41 anos do velho Lua e Idelzuita, uma longa e bonita história. “Certo ou errado, era bonito”, descreveu Echeverria a fala de Gonzaguinha. As duas abraçaram-se e choraram. Da partida com o corpo, o filho do Rei do Baião se emocionava pela segunda vez: um vaqueiro tirou o chapéu da cabeça suada para dizer adeus.
Joquinha, o sobrinho, acompanhara a pedido do próprio tio os últimos acordes de Gonzaga na terra. E não foi o choro de dor, ou a teimosia em não se aquietar numa cama e querer dormir de rede que ficou mais forte nas lembranças. O tio era teimoso, decerto, e também autoritário por querer as coisas certinhas conforme tinha aprendido com a mãe, dona Santana. Na verdade, Luiz Gonzaga eram tantos que uma biografia só não lhe abarca a vida. Homem simples do nascimento à morte, despertou na própria terra a admiração e o amor, e também o preconceito jogado a quem mesmo preto e pobre alcança fartura e sucesso.
Jeito cabreiro, mas dado ao público, homem do sertão e da cidade, Luiz Gonzaga foi o maior fenômeno da música dita Nordestina, mas que surgiu e se dissipou justamente no sul do País. “A música de Luiz Gonzaga é de sertão cheio de cidade”, definiu o afilhado Waldonys. Nas décadas de 1940 a 1960, carregado pela toada da Asa Branca, Gonzaga ganhou as rádios nacionais quando resolveu deixar de tocar as modas das polcas, choros e sambas para reinventar a música do seu pé-de-serra, um ritmo puxado a sanfona que só muito depois ganhou o título genérico de forró. Midiático e marqueteiro de si, conseguiu com a imagem construir o que faltava: pegou a indumentária do vaqueiro, misturou-a com a de Lampião e deu um colorido com as fazendas de todas as cores da mãe.
Disciplina de moço que seguiu ao exército desde os 17 anos. “Porque, o mais importante, era a palavra”, costumava dizer. O coração era grande e cabia-lhe a doçura e a generosidade do pai Januário, afinador e tocador de sanfonas. “Está para nascer homem melhor. Onde chegava, distribuía um acordeon. Agora, era preciso saber pedir. Tinha que ter psicologia, não era em qualquer momento”, descreve Joquinha a com propriedade de quem acompanhou o parente em tudo que era show por esse País.
O sanfoneiro Waldonys defende uma conversa ampliada. “Ele não se apropriou. Ele criou o baião. Pegou a sanfona, a zabumba e o triângulo e tirou de lá algo que nunca ninguém tinha visto. O Nordeste é outro depois do ‘seu’ Luiz”, diz, respeitoso.
Naquele pé-da-serra “sem rádio e sem notícias das terras civilizadas”, Luiz ficava de olho arregalado prestando atenção no pai consertar as sanfonas. Enquanto o velho Januário afinava o fole, ele afinava os ouvidos. Aprendeu a tocar só de olhar o pai, sanfoneiro, se apresentar em tudo quanto era de quermesse, casamento a partir de 1926. Quatro anos depois, um episódio mudaria a vida de Luiz e da música brasileira.
Luiz Gonzaga saiu da cidade, em meados de 1930, completaria 18 anos no final do ano. Havia se engraçado por Nazarena, uma mocinha bonita que morava perto do sítio Caiçara, lar da família de seu Januário, de dona Santana e dos oito irmãos. Com a falta de aprovação do pai da moça, o jovem Luizim (como era chamado) criou coragem na cachaça e, com uma faca, foi tomar satisfação com o candidato a sogro. Não deu em nada. Da ousadia, no entanto, Luiz levou uma surra do até então manso Januário que nunca mais esqueceu. Fugido para Fortaleza, entrou no exército até se acostar na capital da República e perceber que dos inferninhos do Rio de Janeiro brotava a possibilidade de ele deixar de ser o mulato humilhado pelos coronéis para se tornar um grande músico que canta o Nordeste. Um dos maiores que desse povo já saiu.
E-Mais> Talvez como numa premonição de que o menino seria diferente, o padre José Moreira França de Alencar, que batizou o segundo filho de Santana e Januário, sugeriu dar um nome diferente ao garoto. Luiz, por ter nascido no dia de Santa Luzia. Gonzaga porque o nome completo de São Luiz era Luiz Gonzaga, e Nascimento porque o mês de dezembro, o do aniversário do Rei do Baião, é o mês de nascimento de Nosso Senhor.
Angélica Feitosa
Vida e Arte
O Povo
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