domingo, 5 de julho de 2009

Oásis social transforma vida infanto-juvenil

Melquíades Júnior
Russas-CE. Em vários rincões cearenses, onde muitas vezes se vive apenas com o básico de que se necessita, é do que “sobra” que nasce a esperança. E não por acaso o que não tem faltado é sede de educação e cultura para centenas de crianças no Sítio Retiro, comunidade de Russas, no Vale do Jaguaribe. Em quase 30 anos de trabalhos, a Sociedade Nova Esperança coleciona exemplos de crianças carentes que se tornaram adultos eficientes. É quando arte e cultura protagonizam instrumentos de cidadania, que trocando logo em miúdos é a oportunidade de ter um futuro além da enxada e plantar outro tipo de semente sem precisar sair da terra em que vive.

Se a informatização tecnológica é um caminho sem volta, os educadores também crêem que na pedagogia do homem já se tornam elementos indispensáveis a música, a dança, o teatro e o circo como aprendizado e exercício da auto-estima. O método arte-educação tem proporcionado verdadeiras ilhas de inclusão social, mudando a história de quem lê e de quem só escreve o próprio nome.

Esse oásis social do sertão está localizado em Russas, que como qualquer município do Interior apresenta, principalmente em suas comunidades rurais, um verdadeiro laboratório da vulnerabilidade social e da situação de risco nas comunidades de Retiro, Borges, Poço Verde, Pau D’Arco, Córrego da Catita e Melancias, em que a maioria das famílias vivem da agricultura de subsistência, do extrativismo da palha de carnaúba e do trabalho nas fábricas de telhas e tijolos. É lá que os meninos fazem arte, com atividade lúdica que começa, literalmente, da brincadeira, que em verdade é o pretexto para tornar-se o espaço de convivência social entre crianças, pais, professores e padrinhos estrangeiros, propulsores da idéia do “vá em frente”, reverberada nas cartas mensais que mandam para os afilhados que mal conhecem, mas em quem depositam esperanças.

A Sociedade Nova Esperança é uma entidade filantrópica conveniada ao Fundo Cristão para a Crianças, que atua em vários municípios do Ceará. Fundada em 1982, a entidade funciona na sede da Escola Municipal Agrícola Padre Pedro de Alcântara, mantida pela Prefeitura Municipal. Os alunos estudam da educação infantil ao ensino fundamental. E são muitos outros os apoiadores da “Nova Esperança”. Um exemplo assim pode ter início com um pedaço da carta de João Paulo de Oliveira: “Uma casinha de taipa, um rio, uma ponte, alguns animais, uma lavoura, uma grande cheia...Um helicóptero com alimentos”. O menino descreve só um dos cenários da infância, de quando na cheia dos anos 1980 precisou ser resgatado para não ser levado pelas enxurradas.

Mas a história prossegue com outro resgate, dessa vez social. O filho de agricultores, que à primeira vista agricultor também seria, não só decidiu estudar como foi estimulado a estudar muito mais. Só precisava de alguém que acreditasse em seu potencial. E encontrou. Agora bacharel em Ciência da Computação e morando em outro Estado, o menino da casinha de taipa virou, para os mais novos, exemplo de que o mundo vai além do que se vê.

“Isso aqui é nosso bem maior, é poder ver a criançada que hoje corre, brinca, participando das rodas de leitura, do teatro de bonecos e que o aprendizado não é só daquele momento, vai pra vida toda. E por quê? Quando você tem uma região, em que as futuras gerações teriam tudo para não dar certo, fazer o que não presta, e de repente você vai atrás de um futuro melhor, isso nos dá muito orgulho, e até os pais aprendem e as coisas começam a mudar, sabe?”, diz Francisco Wellington Sombra, gestor do projeto e um dos fundadores da escola agrícola. A entidade beneficia diretamente 1.778 pessoas de 394 famílias.

A mais nova promessa na comunidade rural é o movimento Geração Esperança, aprovado pela Secretaria do Trabalho e do Desenvolvimento Social, que concederá, por meio de subvenção social, R$ 48 mil para atender a mais 90 crianças, oferecendo desde aulas de flauta a artes plásticas. Nas atividades circenses, a expressão corporal. Os meninos deixam de fazer “uma arte” — como se referem popularmente à traquinagem — para fazer arte, promover a cultura, e melhorar bem mais a educação.

ERA UMA VEZ
Alunos tornam-se exemplo de dedicação

Russas. Maria Rafaela, de 14 anos, se pudesse não teria crescido, só para poder continuar na escola agrícola onde fica a Sociedade Nova Esperança. “É que eu já estou no ensino médio”, e lá se estuda da educação infantil ao ensino fundamental. Mas Rafaela nem pode reclamar. Na mesma sala em que aprendeu a ler além das letras — na leitura das fábulas infantis — ensaia o teatro de bonecos para as crianças menores. Ela e o colega de infância Marcelo de Lima, que tem a mesma idade. É dos livros infantis, de quando “era uma vez”, que saem idéias para o teatrinho.

Outra atriz de fantoche, Luana Nara, também é orgulho prodigioso da Sociedade Nova Esperança. Dentre outras coisas, “aprendi xadrez aqui”. E aos 13 anos já foi vice-campeã cearense em torneio de xadrez. “Agora a gente passa o que sabe para quem não sabe”, afirma. É assim desde 1982, quando Wellington repassou o que sabia e as gerações foram crescendo. Dalvani de Oliveira, 9 anos, da comunidade de Melancias, quer ser doutora “de alguma coisa”. Se isso inclui “de cidadania”, a menina já está no caminho certo. Pegou um estojo de xadrez na brinquedoteca e chamou uma amiguinha para montar a figura.

Na brinquedoteca acontece mensalmente o projeto Casinha de Cultura, que leva para as comunidades uma brinquedoteca itinerante, onde brinca até gente grande. Dentre outras atividades, realizam reforço escolar, oficina de bumba-meu-boi, debate no encontro de jovens, o projeto ensino em cena (exibição de filmes, seguidos de debates), curso pré-vestibular e de informática básica.

A entidade tem como uma das principais parceiras a Prefeitura Municipal de Russas, que, em contrapartida, deve agradecer às atividades da associação, que incluem monitoramento do desenvolvimento nutricional de crianças de 0 a 5 anos. “É uma série de atividades que nós sabemos que são de obrigação do serviço público, seja municipal, estadual ou municipal, em que nós não esperamos e fazemos a nossa parte, mas que nem por isso eles têm que deixar de fazer a dele”, afirma Francisco Wellington.

E foi aproveitando a visita da reportagem que os gestores listaram os problemas: o piso da quadra foi construído há quase 30 anos e não passa de um chão de remendos; faltam cursos profissionalizantes; existe curso de informática, mas a sala de computadores não dispõe de Internet; e faltam livros na biblioteca, a mesma que faz parte do calendário lúdico do teatro de bonecos, da contação de histórias e da produção de cartas para os padrinhos que financiam o Fundo Cristão para Criança. “Também faltam cursos profissionalizantes para atender a demanda dos jovens que já estão aqui”, aproveita o coordenador Wellington.

A intenção é dar mais oportunidade a quem passou da idade de ser apadrinhado pelos estrangeiros solidários e que já passou por todas as etapas da Escola Agrícola, e agora tem que enfrentar a vida lá fora. No desafio, um apoio a mais é fundamental para que o jovem prossiga rumo à vitória.

SAIBA MAIS

Conselho
A Sociedade Nova Esperança é administrada por um conselho de pais composto por 21 membros que se reúne mensalmente para avaliar e planejar as atividades da entidade

Padrinho
O Dia do Padrinho foi instituído pelo Fundo Cristão para Crianças no dia 15 de junho de 2004, a fim de homenagear e agradecer os padrinhos dos dez países parceiros: Brasil, Estados Unidos, Alemanha, Austrália, Dinamarca, Nova Zelândia, Suécia, Taiwan, França e Inglaterra. Já são 508 padrinhos

Infra-estrutura
A Escola Agrícola, que sedia a entidade, dispõe de salas de aula, pátio, laboratório de informática, quadra de esporte, refeitório, brinquedoteca, posto médico-odontológico, além de outros espaços de convívio. Os interessados em apadrinhar uma criança devem ligar para o número 0800 .0312350 (ligação gratuita), solicitando informações para o trabalho de assistência infantil

Mais informações:
Sociedade Nova Esperança (88) 9634.4014
sone1782@yahoo.com.br
Município de Russas
Vale do Jaguaribe

MELQUÍADES JÚNIOR
Colaborador
DN

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