O xilógrafo e gráfico Cícero Lourenço Gonzaga resolveu contar a trajetória da cidade em xilogravura
Juazeiro do Norte. Um presente para o centenário de Juazeiro do Norte. A trajetória da cidade, os seus momentos mais marcantes, contados por meio de uma história temática em xilogravuras. São 22 matrizes, elaboradas num período de dois anos e meio, pelo xilógrafo e gráfico Cícero Lourenço Gonzaga. A proposta de trabalho nasceu com um gênio da xilogravura, Stênio Diniz. Não foi ele que elaborou, mas incentivou, deu opiniões e despertou em Cícero a idéia, que antes Stênio mesmo não achava que ele iria abraçar. “Achou que fosse uma brincadeira, e já disse para ele que tinha feito a história antiga da cidade”, relata. A partir daí, se começou a pensar o que seria explorado nas outras matrizes.
Cícero: Uma homenagem ao Cícero, autor do trabalho e ao próprio padre dos romeiros de Juazeiro. Lourenço: Ele levou para o talhado o beato que tinha o seu sobrenome. Juntou tudo e fez também uma homenagem a si próprio, a uma história que o xilógrafo juazeirense também faz parte. Os 100 anos de Juazeiro do Norte, uma perfeita coincidência, já que nem se pensou nessa idéia antes. Portanto, ficam as evidências da sensibilidade do artista, que aos poucos e com um esmero de quem já fez milhares de xilos, repassa nessa obra, em especial um momento importante de sua carreira.
Cada momento da história foi discutido com historiadores, escritores da cidade e outros artistas do ramo. Cícero afirma que fez consultas ao jornalista Geraldo Menezes Barbosa. Da secretária do Padre Cícero, Assunção Gonçalves, trouxe o trabalho de resgate da vila que deu origem ao Juazeiro. Também, como não poderia deixar de ser, fez a justa homenagem de incluí-la na coleção.
“Vejo esse como um trabalho inédito para Juazeiro, dentro da proposta da xilogravura”, diz Cícero Lourenço, que traz no sangue a xilo, que também é sua vida, já que desse ramo não imagina sair nesta vida. O irmão, José Lourenço, se encontra em Recife, com outros trabalhos de xilo. Dois nomes da xilo de Juazeiro, que iniciaram ainda crianças dentro da gráfica São Francisco.
O avô, Pedro Luiz Gonzaga, levou os dois para auxiliarem nos serviços. De tudo o homem sabe fazer. “Se me entregarem um cordel, faço desde a xilo e toda a montagem”, diz Cícero, que já está nessa levada há pelo menos 30 anos, só entre a São Francisco e a Lira, que juntando as duas é uma só.
O trabalho, ao mesmo em tempo que obedece a uma ordem cronológica, se mistura com personagens importantes, momentos marcantes. Da vila à despedida dos romeiros do Padre Cícero. O homem de braços abertos, que abriu a cidade para o mundo. “Foi justamente a última delas, a despedida, que mais me deu trabalho”, diz o artista xilógrafo.
A beata Maria de Araújo aparece em dois momentos: recebendo a hóstia do Padre Cícero, e sozinha. Tem também o encontro do Padre Cícero com Lampião. Um momento histórico com controvérsias, mas está lá, nos registros de Cícero. O beato José Lourenço, figura das mais importantes, que terá o seu Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, no Crato, transformado em local de visitação, com toda a estrutura, para os próximos anos. Floro Bartolomeu, um dos primeiros prefeitos, José Geraldo da Cruz, a Basílica, o Capela do Socorro, o Museu, no Horto, a casa do Padre Cícero, na Rua São José, hoje museu no Centro da cidade.
A estação ferroviária resgata a fase de desenvolvimento da cidade. Por quase cinco décadas, padre Murilo de Sá Barreto esteve à frente da Basílica. Um acolhedor dos romeiros do Padre Cícero. Recebe as honras de marco na história, como a própria mãe do Padre Cícero, Joaquina Romão.
Padre Cícero
A imagem do Padre Cícero é presença constante nos trabalhos, o fundador da cidade. O monumento no Horto em sua homenagem é lembrado além das cartas que escrevia. De um registro fotográfico, para a xilo. Uma perfeita imagem no talho. Cícero faz questão de lembrar das importantes participações em seu trabalho do xilógrafo Manoel Inácio. Cerca de 90% dos desenhos foram feitos por ele para os trabalhos da coleção de Lourenço, que imprimiu sua marca com o traço do talhado. “É que não sou muito bom no desenho”, diz.
A coleção poderá ser tema de exposição em São Paulo. Os detalhes ainda vão ser discutidos com o pessoal de lá. Na terra do “padim”, ainda não tem nada certo, até o momento. O projeto foi para a prefeitura. Mas, como não dá para perder tempo, porque a arte é também um meio de sobrevivência, Cícero decidiu iniciar a venda da coleção, com o auxílio de caixinhas luxuosas, que ele mesmo faz com fivelinhas douradas, forradas em versões de chitão e até veludo. São feitas nas versões de colecionar, a R$ 400,00, com o tamanho original das xilos, e menores, a R$ 50,00. Ele afirma que a idéia foi buscar algo que valorizasse mais a coleção, que traduz um momento especial em sua carreira. Cícero Lourenço fez um trabalho de pesquisa, leu livros, fotografou. Fez algo diferente das séries de trabalho na roça, engenhos.
Uma nova coleção está nascendo e em breve será lançada. Dessa vez em homenagem aos 100 anos do poeta Antônio Gonçalves da Silva, Patativa do Assaré. A imagem em sombra, com detalhes da cultura regional. 15 xilogravuras. Um trabalho em série que parece ter tomado gosto.
Mais informações:
Gráfica Lira Nordestina
Castelo Branco, 150, Romeirão, Juazeiro do Norte
(88) 3102.1150
ELIZÂNGELA SANTOS
Repórter

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