segunda-feira, 27 de julho de 2009

Afogamento: 2.500 mortes evitadas por ano

Kid Júnior

A média de salvamento do CBM/CE é cinco vezes maior que o número de mortes por ano, que chega a 500

Josué Gomes dos Santos, 64 anos, jangadeiro, se considera um grande conhecedor do mar. Ele é pescador há 50 anos. Há duas semanas segurava o choro na recepção do Serviço de Verificação de Óbitos (SVO), onde temporariamente estão sendo examinados os cadáveres que vão para a Coordenadoria de Medicina Legal (Comece). ´Há 14 anos perdi um filho pro mar. Ele pulou da jangada e quando voltava do mergulho outro rapaz pulou. Os dois bateram as cabeças e meu filho ficou atordoado. Ele sabia nadar, mas acabou se afogando. Agora, estou vivendo toda essa dor de novo. Desta vez o mar levou meu menino de 10 anos´, dizia, referindo-se à morte do filho Jailson Silva Santos, que completaria 11 anos de idade no dia 25 de agosto deste ano.

O estudante tinha ido à praia com dois amigos e ficaram na Barraca Praia Azul, uma das primeiras da Praia do Futuro. Era meio-dia de 14 de julho. Segundo pessoas que estavam na barraca, o garoto estava brincando no mar com um colega quando ambos começaram a se afogar. Um homem foi ajudar e conseguiu resgatar um dos meninos.

Mas para Jailson aquele foi o último mergulho. Bem perto do local, apenas duas barracas depois, havia uma torre de guarda-vidas do Corpo de Bombeiros (CB). Ninguém deu o alerta. ´Quando isso ocorre, quando não há torre no local em que o afogamento está acontecendo, é preciso que as pessoas chamem o guarda-vidas. Ele é preparado para correr e chegar logo até a vítima´, explica o capitão Rômulo César, comandante da 1ª Seção de Salvamento Marítimo do Corpo de Bombeiros do Ceará.

Números

O corpo de Jailson foi levado pelas águas e só apareceu três dias depois, na Barra do Ceará. Ele foi mais uma vítima de afogamento no Estado. No Ceará, 500 pessoas, em média, morrem afogadas por ano. No Brasil, são oito mil pessoas e, no mundo, 500 mil mortes acontecem anualmente.

Em contrapartida, cerca de 2.500 mortes são evitadas todos os anos no Estado pela ação de guarda-vidas dos Bombeiros ou preparados por eles. ´Temos, em todo o Ceará, guardas municipais e gente da sociedade civil que atua como guarda-vida. São pessoas preparadas por nós, capacitadas para o trabalho. Felizmente evitamos muitos afogamentos por causa disso´, destaca o capitão Rômulo César.

De acordo com o oficial do CB, mais de 80% das vítimas de afogamento são homens, entre 10 e 39 anos. Ainda segundo ele, o horário mais crítico nas praias é o de 14h às 15h59. ´É quando se tem que estar mais alerta´, ressalta. Atualmente, por causa das férias, a atenção dos Bombeiros é redobrada. ´E isso não acaba agora. Em agosto vêm as férias européias, caracterizando ainda a alta estação´, explicou Rômulo.

Interior

Em algumas cidades do interior do Ceará, como Sobral, pessoas são capacitadas e requalificadas pelo Corpo de Bombeiros para realizar atividades de prevenção e ações de salvamento aquático em mananciais (rios, lagoas, açudes) e piscinas naturais e artificiais. Grande parte dos afogamentos são registrados nestes mananciais. ´Existe a lei 13.462, de 2004, que obriga a todos os que têm piscinas ou mananciais a terem guarda-vidas. Fiscalizamos e fazemos várias campanhas preventivas´, explica o capitão do Corpo de Bombeiros.

Já em outros municípios, como Camocim, que possui cerca de 62 quilômetros de praia, 23 guarda-vidas foram treinados no início deste ano para atenderem à demanda turística da região.

Surf-salva

Um dos maiores projetos do Corpo de Bombeiros do Ceará é o ´Surf-Salva´. O projeto estabelece parceria entre o CBM e Escolinhas de Surf ou praticantes do esporte dotando-os de conhecimentos técnicos, físicos e psicológicos para estarem aptos a realizar resgates no Litoral Cearense através de técnicas de salvamento aquático.

Como objetivos principais do projeto, estão a qualificação dos praticantes de surf como guarda-vidas avançados e o despertar nos surfistas do caráter solidário, mostrando que o lazer pode implicar a possibilidade real de salvaguardar vidas nas praias. Desta forma, os Bombeiros esperam também diminuir os índices de afogamento no Estado.

FIQUE POR DENTRO

Lei regulamenta a ação dos guarda-vidas

A Lei 13.462, de 27 de abril de 2004, dispõe sobre a presença obrigatória de profissionais de salvamento aquático nas áreas de lazer públicas e privadas do Ceará. Logo em seu artigo 1º, a lei determina a obrigatoriedade da presença de guarda-vidas nas áreas de lazer que facultem aos usuários o acesso a piscinas, cachoeiras, saltos, lagoas, açudes, cavernas e grutas, abertas à visitação pública, administrada pelo Poder Público ou por particulares.

Segundo a lei, são considerados guarda-vidas os profissionais em salvamento aquático com certificado do Curso de Treinamento Credenciado, vistoriado e aprovado pelo Corpo de Bombeiros Militar do Ceará. A presença de profissionais de salvamento nas áreas de lazer referidas na lei, será exigida durante todo o horário de funcionamento aberto aos usuários

Nathália Lobo
Repórter
DN


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