
Artesãos denunciam irregularidades no Centro de Cultura Popular Mestre Noza e ameaçam deixar a entidade em Juazeiro
Juazeiro do Norte-CE. Um espaço privilegiado da arte, com mais de um milhão de peças de artistas caririenses, a Associação dos Artesãos do Padre Cícero (Centro de Cultura Popular Mestre Noza), está sendo alvo de críticas por parte de alguns associados, que pretendem até deixar de repassar suas peças. A reclamação está, principalmente, voltada para a pouca comercialização dos produtos e a exposição das peças que são comercializadas ao relento, por falta de espaço para a entidade funcionar.
A busca pela sobrevivência ameaça a saída de artistas da entidade, fundada há quase 25 anos. O presidente da associação, Hamurabi Batista, atribui a queda nas vendas, uma das piores da história da instituição, considerada o maior centro de comercialização do Nordeste de produtos de artes, à crise mundial. Outro problema está associado à venda de peças bem acima do valor repassado, segundo uma das associadas. Está em execução no local um recadastramento dos associados. Até o momento são 145. 54 deles são artesãos da madeira. O trabalho fará com que se chegue a um número oficial.
De acordo com o presidente, o Centro comercializa 60% dos seus produtos principalmente para o Sul, Sudeste e Centro-Oeste e se não há saída nesses centros, também acontece o mesmo com a entidade. Artesãos culpam a associação pela queda nas vendas. Enquanto isso, peças se estragam em um espaço onde a arte vive exposta às intempéries do tempo.
Várias peças estão danificadas pela ação dos cupins e muitas podem ser vistas rachadas. Grandes esculturas de madeiras, um valor incalculável da arte, se perdem pela falta de estrutura do Centro Mestre Noza, referência em países da Europa da arte nordestina, um patrimônio que reflete a identidade de uma sociedade.
Valor questionado
Uma das mais antigas associadas da entidade, desde 1985, especialista em esculpir o “Divino”, Francisca Lopes diz que perdeu o gosto de levar sua arte para o Centro. Ela conta que repassou para entidade uma peça no valor de R$ 150,00 e viu sendo comercializada por R$ 350,00. Ela achou isso irregular, já que a entidade é dos artesãos e não tem fins lucrativos. E na verdade é, admite o atual presidente. Ele diz que o que fica para a entidade é voltado para a manutenção e compra de novas peças, além das despesas operacionais. Isso chega a uma margem de 40% acima do valor repassado pelo artesão.
Ele acusa o ex-tesoureiro, o artesão Severino Sousa, de ter vendido os produtos com essa margem anteriormente. Admite que, durante o período em que o artista esteve como tesoureiro, houve compra indiscriminada de peças, superlotando o espaço, sem critérios de qualidade, inclusive com cheques pré-datados, para o repasse aos artistas.
Severino admite que comprou mesmo as peças, porque os artistas precisam sobreviver e no seu período havia dinheiro circulando. “Só adquiria as peças porque tinha dinheiro. O ruim é que atualmente não há venda e os artesãos estão se afastando”, diz ele.
Mesmo sem ter onde guardar todo o material, Severino diz que há uma queda no número de produtos do Centro. Segundo o artesão, as peças estão saindo sem que haja a compra de novos artigos. E ainda acusa a entidade de estar tomando dinheiro emprestado, e até com cheques para pagar depois, por inabilidade da administração para a comercialização dos produtos.
Para Hamurabi, essa é uma política suja que vem sendo praticada pela oposição, tentando “sabotar” o trabalho e até o processo de comercialização. Ele defende o espaço, criado por seu pai, o poeta, cordelista, xilógrafo e escritor Abraão Batista, que deve ser preservado e os artistas, qualificados. Para isso, vem empreendendo diversos projetos.
Ao entrar no mês de agosto do ano passado, Hamurabi afirma que uma de suas primeiras medidas foi reaproximar a entidade do Sebrae, um dos principais parceiros na promoção, divulgação e comercialização.
Aquecimento nas vendas
Houve a Rodada de Negócios, no ano passado, que representou um grande momento nas vendas. Segundo o presidente, foram comercializados R$ 84 mil, o equivalente, segundo ele, a três rodadas anteriores. O valor é contestado por Severino, que na presença da reportagem do Diário do Nordeste, pergunta para o atual tesoureiro, Cícero Caetano Rodrigues, Zumbi, o que foi vendido e ele diz que o valor chegou a cerca de R$ 45 mil. “Realmente significou uma boa venda, mas foi no momento que ele entrou e tinha peças boas para serem comercializadas, adquiridas na gestão anterior”, enfatiza Severino.
Desde o início do ano, Hamurabi vem contabilizando quedas subseqüentes nas vendas das peças em exposição no centro de artesanato.
Ele diz que somente em janeiro, a diminuição nas vendas, em virtude da crise mundial, foi de 31% em relação ao ano anterior. Em fevereiro, 8,1%; março, 18% e abril, um recorde de 61%, a gota d’água para a crise na instituição.
Maio, segundo afirmou, ainda não foi contabilizado, mas já indica uma pequena melhora. A expectativa é que o resultado seja positivo.
FILA DE ESPERA
Pagamento por senhas é questionado
Juazeiro do Norte. A dificuldade do Centro Mestre Noza acaba refletindo nos artesãos. A artesã Francisca Lopes disse que esse desestímulo tem acontecido com muitos artistas. Ao repassar uma peça, recebe o pagamento parcelado em três vezes e tem sábado que não chega a pegar em dinheiro. Em dezembro do ano passado entregou uma peça. Sua filha, Silvana Santos, também está desestimulada. São horas de espera, ressalta ela, para receber o pagamento, quando recebem. O novo sistema de pagamento, com senhas, também é criticado. “É uma humilhação para nós artesãos, para mim, que toda vida vendi o meu trabalho lá. Minha filha está desencantada”, diz.
Francisca afirma que além das peças serem comercializadas muito além do preço repassado pelo artesão, há aquelas que ficam estragadas pela ação do tempo e, com isso, há uma desvalorização do trabalho do artista. “Estou pensando em não trabalhar mais. Tem muita gente insatisfeita, não estou falando mal de ninguém, mas fica difícil ter que trabalhar por lá. Tenho vontade de arranjar freguesia para fora e poder repassar o meu trabalho. Acho melhor assim”, diz.
O presidente da entidade, Hamurabi Batista, rebate a crítica e diz que, em sua administração, isso não tem acontecido por conta do cumprimento legal da Associação, que não tem fins lucrativos.
Já o artesão Cícero Fabrício Rodrigues Duarte afirma que hoje atua como auxiliar de produção de uma fábrica de refrigerante. Ele foi um dos que aprendeu a esculpir na madeira no Centro de Cultura, mas afirma que, em razão dos poucos repasses, não estava dando para pagar as contas e teve que buscar outro meio de vida. “Essa é uma fase muito ruim para associação. Quem não ganha nada daqui vai ter que buscar em algum lugar e isso acaba provocando a saída de muitos artesãos, se não há apoio”.
Quanto às saídas dos artesãos, Hamurabi disse que isso sempre aconteceu no Centro. Muitos artesãos, conforme ele, até vendem seus produtos a preços menores no mercado do que na própria associação. “Isso ainda acontece hoje. É um absurdo, falta de consciência de associativismo”, lamenta. Acrescenta, ainda, que dói muito ver as peças sendo estragadas no pátio, mas encontrou o local em pior estado e levou até seis meses para tirar parte do lixo que se encontrava no pátio, com vários troncos espalhados. “Teve gente que chegava aqui e voltava da porta, pensando que era um lixão”, ressalta.
Para Hamurabi, foi uma maneira mais organizada para respeitar as mulheres e idosos, inclusive grávidas e lactentes, que às vezes ficavam horas aguardando. “São formas de organização que soam como medidas impopulares. Isso incomoda as pessoas”, diz.
Ele cita vários projetos que estão sendo elaborados pela administração do centro, no intuito de promover melhorias, inclusive um a fundo perdido com o Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES), para construção de um espaço com segundo piso para abrigar o trabalho dos artistas, em sua maioria esculturas em madeira, além de um local adequado destinado à reserva técnica. Outro projeto prevê construção de banheiros e rampas para portadores de deficiência. São propostas com a finalidade de humanizar e também capacitar os artesãos.
Hamurabi diz que 43% deles não têm o nível fundamental completo, 14% são analfabetos e apenas 17% têm conhecimento de informática. Para isso, estão sendo adquiridos computadores para acesso à internet e cursos de capacitação.
Mais informações:
Centro de Cultura Popular Mestre Noza, Rua São Luiz, s/n (Antigo Quartel)
Centro, Juazeiro do Norte
(88) 3511.3133
ELIZÂNGELA SANTOS
Repórter
DN
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