sexta-feira, 3 de abril de 2009

Marcas da tradição

Registro audiovisual de Sérgio Rezende reunindo a Orquestra Eleazar de Carvalho e os Irmãos Aniceto é lançado hoje, em novo concerto no José de Alencar

Foto: Jacques Antunes
Há 10 anos, concertos esporádicos reúnem a musicalidade popular da Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto e a erudição da Orquestra de Câmara Eleazar de Carvalho. O registro destes encontros aconteceu finalmente entre 29 de fevereiro e 2 de março do ano passado, no mesmo Theatro José de Alencar aonde elas voltam hoje para celebrar o lançamento do audiovisual dirigido por Sérgio Rezende (“O Homem da Capa Preta” e “Zuzu Angel”) com cinco câmeras entre o palco e as dependências do teatro, num processo de montagem rigoroso. Tudo por conta de uma iniciativa direta do governador Cid Gomes, após conferir a apresentação dos dois conjuntos, durante o IV Festival de Música da Serra da Ibiapaba, em 2007. Ante polêmicas por chamar um diretor de fora, o projeto foi tocado adiante pela Secretaria de Cultura do Estado.

O encontro entre as duas formações demonstra como estão próximas estas duas manifestações musicais, ainda que distanciadas pelos preceitos sociais acumulados ao longo de séculos. Se uma é conhecida como “bandinha”, a outra tem a marca das primeiras formações orquestrais. Ambas, nos identificam com a própria música do Ocidente. “São formações mais antigas do universo da música, com a mesma origem, uma unidade que tem um distanciamento a partir da indústria fonográfica. A linguagem musical era mais homogênea”, considera Márcio Landi, maestro e diretor musical da Orquestra. “Mozart era popular na região que ele morava, claro que com uma população muito menor. E além das formações de câmara, havia a música feita em casa, com piano, pequenos grupos, além da polifonia vocal e das músicas eclesiásticas, que ganham uma dimensão mais burguesa com o Barroco, no século XVI, e com a ópera, a maior revolução em termos de linguagem, no século seguinte”, acrescenta.

Se com o Barroco a música começa a servir a várias situações, sendo compreendida como entretenimento, forjando mais e mais repertório das orquestras de câmara, não se pode deixar de lado que o ciclo da música popular também continuava se perpetuando além dos jograis, trovadores e bufões medievais que, com uma influência decisiva da linguagem árabe, desaguaram em expressões populares como as bandas cabaçais e ainda os violeiros, rabequeiros, sanfoneiros e demais manifestações musicais levadas aos novos continentes, como o Brasil.

“Não domino muito este universo popular, mas há contrastes como a técnica de construção e de execução destes instrumentos, como no caso do pife e das flautas, mas é inegável que uma expressão como a da banda cabaçal identifica a nacionalidade através da música, enquanto a orquestra tem uma tradição universal, embora também traga a nossa própria cultura. A grande contribuição é essa: a capacidade que a música tem de, através do particular, conseguir ser universal”, diz o maetro, sugerindo que o projeto tenha continuidade e seja levado a todo o Estado.

Em seu décimo terceiro ano de atividades, a Eleazar de Carvalho sempre busca aproximar-se com um público mais eclético, seja através de um repertório mais “acessível” do que os dos períodos barroco, clássico, romântico, moderno e contemporâneo, ou por meio de encontros com músicos populares como este com a Bandinha, fundada no século XIX, em Crato, pelo agricultor José Lourenço da Silva e hoje mantida por Mestre Raimundo, que tem a companhia do também pifeiro Mestre Antônio e ainda de José Vicente e Cícero (caixas) e José Adriano (zabumba) e José Joval (prato), todos de camisa de manga comprida amarela, calça azul, alparcatas e chapéus.

Trancelim

O espetáculo que será reapresetado hoje, com mais tempo para a orquestra, como antes da edição, começa com “Asa Branca” (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira), com arranjo de Liduino Pitombeira). Os Aniceto aparecem na “Marcha da Chegada”, juntinho à “Alvorada Cabocla”, já demonstrando a tendência dos arranjos em que eles tocam e logo depois a orquestra apresenta sua linguagem, dobra e desenvolve a melodia, com as cordas no ritmo nordestino, enquanto a bandinha faz seu xaxado leve, como em “Forró Mestre Antônio”. No final, entre clássicos como “Dança do Marimbondo”, “Briga de Galo” e “ Baião Trancelim”, os Anicetos estão mais soltos e mais próximos do público. Além do concerto, o DVD traz extras com documentários da banda cabaçal, da orquestra e sobre o Theatro José de Alencar. A cultura cearense fecha alguns ciclos, reabertos a cada apresentação.

HENRIQUE NUNES
Repórter

Nenhum comentário:

Postar um comentário