Somente nas últimas duas décadas que o Dia do Índio passou a ter um significado mais que emblemático no Ceará, coincidindo com o processo de identidade indígena do Ceará. Dos anos 90 para cá, tem-se intensificado a reafirmação da identidade étnica.Os movimentos indígenas estarão reunidos, hoje, na Aldeia Santo Antônio, da etnia Pitaguary, município de Maracanaú. Nas festividades, torneios esportivos, as danças sagradas, como o toré, e discussões sobre o futuro da luta indígena.Em várias escolas, públicas e privadas do Interior, a última sexta-feira foi dia de comemoração antecipada do Dia do Índio.
A meninada pinta o rosto, se enche de penas e murmura agudo, batendo com a mão na boca. Vendo o índio do livro didático, nu ou seminu, como à época da invasão portuguesa, reforça-se o estereótipo do ser índio, daí o espanto, ainda hoje, quando se afirma que existem índios no Estado do Ceará, espalhados pelas grandes e pequenas cidades.
Etnias do Ceará
Em todo o Ceará existem pelo menos 13 etnias reconhecidas pela Funai e cerca de 22.400 cearenses que se auto-afirmam índios. Estão espalhados em vários municípios do Estado, principalmente nas regiões Norte, Inhamuns e Região Metropolitana. Jenipapo-Kanindé, Anacé, Cariri, Pitaguary, Potiguara, Tabajara, Tapeba, Tupiba/Tapuia e Tremembé, várias são as etnias indígenas espalhadas pelo Ceará, representadas por organizações como a Coordenação dos Povos Indígenas do Estado do Ceará (Copice), da Associação das Mulheres Indígenas do Ceará (Amice) e da Articulação dos Povos Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (Apoinme).
Programação
A abertura do evento tem início na escola indígena, com a leitura da programação e de um texto sobre a importância de ser índio, seguido da fala dos convidados, inclusive de outras etnias.As comunidades farão uma caminhada para a mangueira de mais de 200 anos que há dentro da aldeia, liderados pelo cacique Daniel Araújo e pelo pajé Barbosa. Será dado início ao ritual sagrado com as orações.
Haverá inauguração da Palhoça Indígena, em parceria com a Prefeitura Municipal de Maracanaú e o Movimento de Saúde Mental do Bom Jardim. À tarde tem corrida de 100 metros, arremesso de lança, arco e flecha e o desfile de escolha do Garoto e da Garota Pitaguary.
Apresentação“Teremos também uma apresentação de uma peça da comunidade do Bom Jardim do movimento de saúde mental, que é o nascimento de um guerreiro e apresentação do toque dos tambores. Alguns índios também farão apresentações de danças”, comenta a secretária do Conselho de Articulação Indígena do Povo Pitaguari (Cainpy), da Aldeia Santo Antônio, de Maracanaú, Cristina Silva.A comunidade é dividida nos aldeamentos do Orto, Olho D’Água, Santo Antônio e Monguba, esta última situada no município de Pacatuba. A etnia está em processo final de demarcação de suas terras.
Preocupação
A Fundação Nacional do Índio (Funai), escritório de Fortaleza, atua como principal parceiro público na defesa da causa indígena. A principal comemoração e, paradoxalmente, preocupação é com a demarcação e também com a homologação de terras pertencentes às etnias.“A terra é o maior bem do índio, é a nossa mãe. Por isso existe essa grande luta pelos povos indígenas, é o lugar de onde vem o nosso sustento e de nossas famílias. Mas hoje nós, índios, ainda encontramos muitas dificuldades, principalmente quanto aos posseiros”, afirma Cristina Silva.
A luta enfrentada pelos índios Pitaguary, do município de Maracanaú, é com famílias de fazendeiros, como um deles que alega ser dono de parte de uma área de 600 hectares onde hoje está situada a aldeia do Santo Antônio dos Pitaguary, onde serão as comemorações neste domingo.
FIQUE POR DENTRO
Sempre existiu índios no Estado do CearáAo contrário do senso comum que durou muitos séculos, sempre existiu índios no Ceará. Hoje os movimentos dos povos unidos ganhou vida, na luta pelo direito, principalmente à terra. A Coordenação dos Povos Indígenas do Ceará (Copice) têm registradas 12 concentrações de etnias indígenas no Ceará: Tapeba (Caucaia), Tremembé (Acaraú, Itarema e Itapipoca), Pitaguary (Maracanaú e Pacatuba), Jenipapo-Kanindé (Aquiraz), Kanindé (Canindé e Aratuba), Potiguara (Tamboril, Crateús, Monsenhor Tabosa e Novo Oriente), Tabajara (Monsenhor Tabosa, Crateús, Tamboril, Poranga e Quiteranópolis), Kalabaça (Crateús e Poranga), Kariri (Crateús), Anacé (São Gonçalo do Amarante e Caucaia), Gavião (Monsenhor Tabosa) e Tubiba-Tapuia (Monsenhor Tabosa). O número pode ser maior, na medida em que ocorrem os processos de auto-reconhecimento dos índios. Todos os anos é realizada a Assembléia Estadual dos Povos Indígenas, o único evento desse tipo no Nordeste. O Diário do Nordeste foi o primeiro e único a fazer uma sua cobertura.
Mais informações:
Conselho de Articulação Indígena do Povo Pitaguary (Cainpy)(85) 8832.5293
Reportagem
Melquíades Júnior
Fonte: DN
Nenhum comentário:
Postar um comentário